Em 1964, faltou quem de fato defendesse a democracia? Agora nós temos seus guardiões.

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As inúmeras análises e reminiscências sobre o golpe de Estado iniciado dia 31 de março de 1964 publicadas nos jornais brasileiros nos últimos dias, em especial um material precioso do “Estado de S. Paulo” no domingo, mostram como o mundo e o Brasil mudaram, talvez para melhor, nos últimos 60 anos. Em 1964, a democracia brasileira era frágil e tinha pouca estima por suas elites em seus diversos espectros ideológicos. Naqueles tempos, estiveram a favor do movimento militar boa parte da imprensa, dos empresários, da classe média e até mesmo cidadãos como o futuro presidente da República, o ainda torneiro mecânico Luiz Inácio Lula da Silva, conforme sua hagiografia escrita por Fernando Morais. Há seis décadas, faltou quem defendesse a democracia pela democracia. Hoje o regime é muito mais um valor em si e falar em “intervenção militar” pega muito mal.

Muitos dos que estiveram contra o golpe não o eram por credenciais democráticas. Era um período de revoluções na América Latina. Instalar aqui um regime como o de Cuba de Fidel Castro era uma aspiração para uma parcela da sociedade e um verdadeiro horror para outra. Eram tempos em que pensadores como Jean Paul Sartre celebravam a violência como forma de combater o capitalismo. No Brasil, onde estavam os democratas contra o golpe? Há casos de civis como Juscelino Kubitscheck, que queria voltar ao Planalto, e Leonel Brizola, que gostaria de ir para o lugar do cunhado Jango, no Planalto. Logo, se opuseram também por ambições políticas pessoais. Já o governador da Guanabara, Carlos Lacerda, imaginava um golpe de vida curta, para ele também se tornar presidente em um futuro próximo. Precisamos achar os que defendiam a democracia pela democracia naquele Brasil. Na verdade, muita gente queria substituir a ditadura instalada por outra ditadura, de outro sinal ideológico.

Como a visão do passado pode influenciar o presente?

Curioso que os acontecimentos de 64 mostram as dificuldades de se analisar um acontecimento com as lentes do presente. Hoje parece estar mais incontestável que o deposto João Goulart não pretendia e nem tinha quaisquer condições de perpetrar um golpe do Estado à esquerda. Mas, na época, as senhoras com a bíblia na mão, empresários, reacionários em geral, a cúpula do Judiciário, e mesmo gente sensata como o futuro “senhor diretas”, Ulysses Guimarães (!), tinham pesadelos com o que consideravam a iminente instalação de uma república sindicalista com inspirações na ditadura varguista. Por outro lado, setores mais à esquerda consideravam que Goulart fazia algo tíbio e insuficiente num processo histórico indiscutível que apontava para a ditadura do proletariado. Nisso, o presidente, sem forte base na política, foi destituído com relativa facilidade.

Há a frase de Marx de que a história ocorre como drama e depois como farsa. A tentativa cada vez mais clara de Jair Bolsonaro, após a derrota de 2022, de se perpetuar no poder, para nossa sorte, se mostrou como farsa. Encontrou um Brasil diferente. Se deparou com uma Força Armada mais legalista e menos dispostas a aventuras. Com todos os excessos e pontos ainda a esclarecer, o Supremo Tribunal Federal (STF) também foi uma barreira às piores intenções de Bolsonaro. Enfim, o ex-presidente fracassou e talvez seu destino seja a cadeia. Mas é preciso registrar que, sessenta anos depois, está claro que resiste no Brasil por uma minoria a ideia de que as coisas podem ser resolvidas por meio da força bruta.

Que lições podemos extrair desses eventos históricos?

É auspicioso saber que hoje 71% dos brasileiros consideram a democracia a melhor forma de governo (segundo o Datafolha), apesar de que o termo democracia talvez não seja algo de entendimento consensual. Lula, por exemplo, já disse que o conceito é relativo, para defender um amigo ditador venezuelano (tomara que tenha mudado de ideia). Já, entre os bolsonaristas, grande parte considera que não vivamos hoje numa democracia. Poderíamos até avisar a eles que só democracias permitem que se fale por aí que não estamos num regime democrático sem algum tipo de represália. Vá lá na Arábia Saudita se queixar da falta de atributos democráticos para ver o que acontece.

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Lula vetou as manifestações oficiais sobre o golpe de 1964. Os motivos não estão claros. Pode ter a ver com uma proposta de restringir de vez, por meio da lei, que militares da ativa participem da política. Pode ser um esforço para estabilizar o país. Ainda estamos à espera de maiores esclarecimentos. Em tese, 60 anos do golpe, deveria ser razão suficiente para o Estado deixar claro que não compactua com ditaduras, não importa quais são suas ideologias.

Mas porque o apreço pela democracia? Curioso a resposta a essa pergunta não ser tão óbvia. Até porque as qualidades da democracia são negativas. É de fato o pior regime possível, com exceção de todos os outros, conforme o chiste de Winston Churchill dito em 1947. A democracia é barulhenta, conflituosa, contraditória, fatigante, aborrecida, muitas vezes lenta, se perde em negociações aparentemente inúteis para quem apenas a observa. Mas é o regime que permite que se discorde do que está sendo feito e concede a possibilidade de botar para correr, por meio do voto, aqueles que podem destruir o país. Parece pouco? Pense bem. Isso pode ser muito. Isso pode ser fundamental.

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